sábado, 12 de dezembro de 2009

Diferentes culturas, preconceitos idênticos – Parte I


Adoro conhecer novas culturas. Não simplesmente para deter o conhecimento, mas por que acredito que o crescimento pessoal acontece através da vivência de diferentes realidades. Não sou nenhum pouco teórica, gosto de aprender na prática e por isso acredito que o relacionamento com pessoas de diferentes culturas me engrandece mais do que qualquer experiência vivida em sala de aula (sem desmerecer o papel do professor e da escola, por favor, sem dúvida nenhuma a educação é indispensável, mas isso deixa para outro post!)


Apesar de ser fascinada pelo diferente, nas últimas semanas passei por dois episódios que me fizeram questionar sobre essa real abertura que tenho para compreender e aceitar outros costumes.


#1: Sábado à noite. Três amigas decidem finalmente colocar em prática a conversa curitibana do vamos combinar. Marcamos data e horário, planejamos a noite e lá fomos nós, rumo à diversão. É importante lembrar que minhas duas amigas são da mesma “tribo”, da qual, definitivamente, não faço parte. Mas meu pensamento open-minded me fez acreditar que boa companhia seria o suficiente para ter uma noite de muita loucura e histórias para contar para a posteridade.


A noite começou com muita risada. Ainda em casa, as três fofocando com vodka e lambrusco como companhia. Depois de muito hahaha seguimos para a primeira parada da noite: um samba. Gosto muito desse estilo musical. Um sambinha bem brasileiro para animar uma festa em família, para cantar na praia ou para dançar com meu pai (pós-graduado em dança de salão), mas samba na balada de sábado não foi a melhor opção da noite.


Sem sucesso no samba, seguimos para a opção número dois, uma balada alternativa, frequentada por heteros, mas onde a maioria do público é gay. Para a minha sorte, amigos pertencentes a esta tribo nos salvaram de entrar no local, mas em compensação me levaram para o lugar que, para mim, é o ícone alternativo de Curitiba. Sem hesitar ou reclamar, afinal estava em minoria e tinha topado a programação, segui em direção da tal balada. Jamais tinha passado pela minha cabeça entrar naquele lugar, mas fui.


A porta abriu e o arrependimento bateu. Luzes piscando, fumaça na pista e gente, muita gente totalmente diferente de qualquer outro lugar que eu já fui. Homem com homem, mulher com mulher, bêbados, loucos, olhares estranhos, pessoas diferentes, mas ao mesmo tempo, todas iguais. Mesmo estilo de roupa, mesmas atitudes, mesmas caretas na pista. Eu só estava ali para me divertir. Dançar músicas que eu nunca imaginei dançar, ver rostos que eu nunca tinha visto antes, vivenciar uma realidade completamente diferente do que estou acostumada. Minha cabeça sabia que era isso que aconteceria, mas meu preconceito não deixou que eu esquecesse o quanto meu mundinho é rosa e como eu não estou preparada para encarar o diferente que está tão perto, literalmente vizinho da minha realidade.


Fim de noite chego à conclusão que é mais fácil me adaptar a uma cultura de outro país do que aos costumes de pessoas da minha própria nacionalidade. E ainda acabo ligando para as mesmas pessoas antes de ir pra casa...


É, certas coisas simplesmente não mudam.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Escrevi e não mandei


Como vocês sabem, sou jornalista. Escrever é o que eu faço para sobreviver. Não só financeiramente. Quem já leu qualquer outro texto desse blog pode perceber que para conseguir ter um pouco de sanidade mental também escrevo, extravazando meus sentimentos e me acalmando para poder sobreviver.

Muito bem, todo esse drama porque estou aqui com um email na minha pasta Rascunhos há dias. Começo, paro, leio, complemento, paro. Volto, leio, paro, releio, escrevo. Salvo, vou fazer outra coisa e ele fica lá, junto com tantos outros emails que comecei e não terminei, esperando ser enviado ou pelo menos terminado.

A verdade é que, assim como todos os outros que habitam a mesma pasta, não tenho certeza se ele deve ser enviado. Eles estão ali porque muitas vezes não falei o que queria dizer ou o que deveria ser dito.

Se esse blog é um desabafo, acho que meus rascunhos são praticamente meu atestado de insanidade mental.

sábado, 19 de setembro de 2009

Cegos que enxergam



Minha mãe, como uma boa psicóloga, é cheia de ensinamentos. Uma das frases que ouço repetidamente é “o pior cego, minha filha, é aquele que não quer ver”. No mesmo contexto que minha mãe aplica este conselho, um grupo de amigas tem usado muito outra frase: não vamos se enganar! (o erro de português, nesse caso, é proposital).

Ultimamente tenho convivido com algumas pessoas que estão precisando passar uns dias com a minha mãe e com as minhas amigas para perceberem a realidade que as cercam. É até triste de ver!

Entretanto, ao constatar o conformismo dessas pessoas, é possível entender porque elas criam a sua própria versão da realidade e preferem acreditar piamente nisso, sem questionar atitudes e valores das pessoas que as cercam ou até mesmo se questionar, o que já seria um bom começo. Filha de psicóloga que sou, acredito que expor seus pensamentos e problemas para uma outra pessoa é uma forma de organizar todos os sentimentos que estão dentro de você e, ao se ouvir, já é possível encontrar uma solução. É claro que em alguns casos a ajuda de um profissional é indispensável, mas o desejo de mudar é sempre imprescindível.

Por isso, se você não quer ver seus problemas, por favor: mantenha a distância.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Informações desnecessárias


6h30 da manhã toca o despertador. De soneca em soneca, meu corpo só consegue acordar às 7hs. Arrumar a cama, café da manhã, frio ou calor, escolher a roupa, sapato, maquiagem para melhorar a cara de sono, toda a documentação conferida. Em menos de uma hora estou no consulado, crente que dessa vez seria uma das primeiras a chegar. Engano meu. ''Tem gente que não usa tanto o soneca quanto eu", foi a primeira coisa que pensei quando vi quase dez pessoas na fila. Tudo bem, meu humor não foi abalado. Até fiquei feliz, afinal, com meu livro embaixo do braço eu teria tempo de sobra para colocar a minha leitura em dia. Depois de duas horas acordada, já sei da história de todo mundo que está lá. "Minha irmã está na Itália e faltou um documento para ela conseguir tirar a cidadania", "minha vó decidiu mudar de nome quando chegou no Brasil, e mudar mesmo, nenhuma certidão que ela tem repete o mesmo nome", "mas moça, da última vez que eu vim aqui me disseram que só faltava esse documento", "ah, tem que ser autenticada? Não sabia"... e por aí vai. Por via das dúvidas, tiro a listinha de documentos que me foi entregue e confiro novamente para ver se está tudo ok. Esse é o tipo de lugar que a gente não quer ir toda semana.

Depois de um bom tempo e alguns capítulos do meu livro, finalmente sou chamada. Ficha preenchida, ok. Cópia do passaporte, ok. Cópia da identidade, ok. Comprovante de residência, ok. Fotos 3x4, ok. "Hum, tudo certo", diz o atendente. "Cor dos olhos?", ele olha para mim e confere: "Castanho". "Altura?". Minha expressão de dúvida e desinteresse foi clara. Eles podiam perguntar peso, medida da cintura, busto e quadril, valor do salário, número do meu pé, cor do cabelo, comida preferida ou qualquer outro tipo de pergunta pessoa pessoal, mas altura? Qual a finalidade do governo italiano saber minha altura, meudeus? Será que a Itália é que nem os brinquedos mais radicais de parques de diversão? Só são permitidos cidadãos que ultrapassem uma certa altura?

Vindo de italiano, a gente pode esperar qualquer tipo de preconceito...